Arquivo do mês: maio 2016

Pensamentos linguísticos e o paradoxo da Tostines

Por Carlos Correa, especial para o Cotidiano Nacional

Saindo um pouco do círculo vicioso que é falar mal dos outros (que nas últimas semanas é quase a mesma coisa que falar mal de político e da crise brasileira), vamos abordar desta vez sobre essa tal de língua mundial.

Mas por que vamos falar sobre isso o incauto leitor deve se perguntar, e para te responder gostaria antes de propor uma reflexão: a gente fala porque pensa ou pensa porque fala? Juro que até o final do texto eu te respondo!

Bom, de acordo com sociólogo George Weber, se o mundo fosse formado por apenas 100 pessoas, apenas 2 pessoas poderiam conversar entre si, e ambas conversariam em mandarim. Todas as outras não conseguiriam se comunicar.

Mas quando a gente pensa em qualquer assunto externo ao Brasil, nosso primeiro pensamento é relacionar à língua inglesa. Como se todo mundo falasse essa língua, o que não é verdade.

De fato, conforme o relatório divulgado pelo Ethnologue, apenas 12% das pessoas falam inglês, e em níveis muito baixos, se olharmos o mapa de proficiência da Education First:

EF_Ingles

Olhando esses dados, pode parecer ao amigo leitor que estamos numa batalha contra o ensino de inglês, o que de fato não faz sentido nenhum.

Nosso objeto é levantar o debate para que pensemos juntos se a estratégia de se ensinar uma língua estrangeira nas escolas na média, por 10 anos, tem sido eficiente no sentido de fazer as pessoas se comunicarem, o que sinceramente, tem falado miseravelmente.

Ao se propor o ensino de uma língua, são ensinadas também as formas de se pensar e de se entender o mundo. Em outras palavras, passamos a ver as coisas pelos olhos de outra pessoa e ainda mais, conseguimos entender e talvez aceitar as coisas que essas pessoas aceitam.

É só perguntar para qualquer pessoa, para onde ela quer viajar. É quase certo que as respostas mais frequentes serão parecidas com Disney.

A influência negativa causada pelo lobby em volta da língua inglesa é tão grande, que é chique misturar palavras inglesas no dia a dia. No mercado publicitário então, nem se fale!

É um tanto de freelancers, jobbys, papers, briefings, kick-backs, budgets que de vez em quando me confundo se realmente estou no Brasil.

Mas fazer biscates, trabalhos, artigos, resumos, comissões e orçamentos não dá status.

Ah sim, respondendo à pergunta lá de cima, nossa linguagem é o que determina a forma como pensamos.

Fontes:

George Weber. Top Languages: The World’s 10 Most Influential Languages. Language Today; Vol. 2, Dec 1997.

Ethnologue (sobre a situação atual da língua inglesa): https://www.ethnologue.com/language/eng

Education First (relatório sobre proficiência em inglês): http://media.ef.com/__/~/media/centralefcom/epi/v4/downloads/full-reports/ef-epi-2014-english.pdf

Carlos Alberto CORREA Filho
Administrador, pós-graduado em história, delegado especialista da
Associação Mundial de Esperanto (UEA), membro da Câmara Brasileira
da Língua Internacional Esperanto (CBLIE)

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O que representa a possível escolha de um religioso para a pasta de Ciência e Tecnologia?

João Santana, do Recife, especial para o Cotidiano Nacional

Nas redes sociais, alguns indivíduos tem-se mostrado preocupados com a possível indicação de Marcos Pereira, do PRB e bispo licenciado da IURD, para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Para esses consternados da última hora, colocar um religioso para cuidar do avanço da ciência no Brasil é uma contradição, uma decisão que pode prejudicar pesquisas em curso, impedi-las em assuntos bioéticos e enterrar as demandas dos onipresentes movimentos sociais em outros campos ligados à C&T. Preocupam-lhes, principalmente, que haja uma guinada ao ensino do criacionismo em detrimento do evolucionismo corrente.

Balela.

Em primeiro lugar, no que se tem avançado em ciência e tecnologia nos últimos anos? Quais as grandes descobertas ou inovações tecnológicas de nossos cientistas? Se nada lhe vem à cabeça, é por isso mesmo: não há nada de novo em C&T há anos. Isso se deve à religião dos ministros anteriores da pasta ora vaga?

Em segundo lugar, o que se leva a imaginar que Marcos Pereira, se posto no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, imporá sua visão de mundo nas áreas sob sua possível futura administração? Por que é isso que religiosos fazem? Ora, isso é preconceito da pior qualidade! Argumentar que Marcos Perereira não tem formação na área de C&T vá lá, mesmo que isso não seja uma condição bene esse – FHC é sociólogo e foi ministro da Fazenda – mas torcer o nariz a uma indicação por causa da religião do indicado? Preconceito puro.

Quanto ao ensino, quem o estabelece não é o MCT&I, mas o MEC. É o MEC, por meio dos Parâmetros Curriculares Nacionais, quem estabelece os referenciais de qualidade para a educação em todo o País; e nos PCN relativos ao ensino de ciências naturais, usados mesmo em escolas confessionais, o padrão é o ensino evolucionista. Temer que o possível ministro da ciência, tecnologia e informação possa, de alguma forma, interferir nos PCN de Ciências Naturais, algo que não é de sua competência, por ser religioso, é fóbico.

Para finalizar, queria lembrar que, ao longo dos séculos, muitos religiosos foram responsáveis por descobertas e inovações na ciência. Nicolau Copérnico (citado nos Parâmetros de Ciências do MEC como um dos fundadores da Ciência Moderna), Gregor Mendel, Alberto Magno, Roger Bacon, Pierre Gassendi, Ruđer Bošković, Marin Mersenne, Francesco Maria Grimaldi, Nicole Oresme, Jean Buridan, Robert Grosseteste, Nicolas Steno, Athanasius Kircher, Giovanni Battista Riccioli, William de Ockham e muitos outros deram contribuições importantíssimas em seus campos de estudo, e sua fé nunca foi um atrapalho para isso.

João ANTONIO Santana não é publicitário, mas gestor de recursos humanos, avôhai e escritor nas horas vagas.

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