O que representa a possível escolha de um religioso para a pasta de Ciência e Tecnologia?

João Santana, do Recife, especial para o Cotidiano Nacional

Nas redes sociais, alguns indivíduos tem-se mostrado preocupados com a possível indicação de Marcos Pereira, do PRB e bispo licenciado da IURD, para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Para esses consternados da última hora, colocar um religioso para cuidar do avanço da ciência no Brasil é uma contradição, uma decisão que pode prejudicar pesquisas em curso, impedi-las em assuntos bioéticos e enterrar as demandas dos onipresentes movimentos sociais em outros campos ligados à C&T. Preocupam-lhes, principalmente, que haja uma guinada ao ensino do criacionismo em detrimento do evolucionismo corrente.

Balela.

Em primeiro lugar, no que se tem avançado em ciência e tecnologia nos últimos anos? Quais as grandes descobertas ou inovações tecnológicas de nossos cientistas? Se nada lhe vem à cabeça, é por isso mesmo: não há nada de novo em C&T há anos. Isso se deve à religião dos ministros anteriores da pasta ora vaga?

Em segundo lugar, o que se leva a imaginar que Marcos Pereira, se posto no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, imporá sua visão de mundo nas áreas sob sua possível futura administração? Por que é isso que religiosos fazem? Ora, isso é preconceito da pior qualidade! Argumentar que Marcos Perereira não tem formação na área de C&T vá lá, mesmo que isso não seja uma condição bene esse – FHC é sociólogo e foi ministro da Fazenda – mas torcer o nariz a uma indicação por causa da religião do indicado? Preconceito puro.

Quanto ao ensino, quem o estabelece não é o MCT&I, mas o MEC. É o MEC, por meio dos Parâmetros Curriculares Nacionais, quem estabelece os referenciais de qualidade para a educação em todo o País; e nos PCN relativos ao ensino de ciências naturais, usados mesmo em escolas confessionais, o padrão é o ensino evolucionista. Temer que o possível ministro da ciência, tecnologia e informação possa, de alguma forma, interferir nos PCN de Ciências Naturais, algo que não é de sua competência, por ser religioso, é fóbico.

Para finalizar, queria lembrar que, ao longo dos séculos, muitos religiosos foram responsáveis por descobertas e inovações na ciência. Nicolau Copérnico (citado nos Parâmetros de Ciências do MEC como um dos fundadores da Ciência Moderna), Gregor Mendel, Alberto Magno, Roger Bacon, Pierre Gassendi, Ruđer Bošković, Marin Mersenne, Francesco Maria Grimaldi, Nicole Oresme, Jean Buridan, Robert Grosseteste, Nicolas Steno, Athanasius Kircher, Giovanni Battista Riccioli, William de Ockham e muitos outros deram contribuições importantíssimas em seus campos de estudo, e sua fé nunca foi um atrapalho para isso.

João ANTONIO Santana não é publicitário, mas gestor de recursos humanos, avôhai e escritor nas horas vagas.

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